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  • 23 de Junho 2016

    Sei Miguel – Lançamento ‘(Five) Stories Untold’

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    Fotografia de Nuno Martins

    Mente essencial na criação sonora produzida por cá, a obra de Sei Miguel não cessa de fascinar. São quase três décadas de estudo em tempo real, apuro estético natural e genuína comunhão cósmica. Símbolo maior de uma música profundamente comprometida com uma linguagem própria, nele também vemos um pedaço de história injustamente esquecida ou pouco partilhada. Com a benção da Ama Romanta de João Peste, concebeu Breaker, um dos momentos mais cruciais do jazz – e da música portuguesa, em termos gerais – de que há memória. Um autêntico statement em 1988, pleno de visões e sensações que viriam não só a abrir novos quadrantes para si como para toda uma geração de músicos e de público atento às novas expressões musicais que viriam a surgir. Ainda hoje, Breaker é objecto raro, física e conceptualmente falando, soando tão enigmático, sedutor e luxuoso quanto se poderia desejar. Contudo, este foi apenas o início de um trabalho maior, ainda e sempre em constante evolução. Consigo, foi-se cercando de alguns dos melhores, como Rafael Toral ou Manuel Mota. O eléctrico e o acústico, o ruído e o silêncio, foram algumas dicotomias que vieram a alimentar muito do seu percurso posterior (com especial ênfase no último elemento).

    Conhecido e reconhecido pela metodologia de composição única, a sua compreensão musical encontra-se muito além dos dois habituais pólos representados pela tradição do academismo e pelo experimentalismo puro. A expressão de Sei Miguel acontece num cenário ongoing, sustentado por liberdade estética sim, mas portadora de uma ética de trabalho, e de ampla existência, não menos que poética. Se o papel do silêncio fora para John Cage causa de vida e legado, escassos foram aqueles que realmente a entenderam e adoptaram enquanto ‘outro lado das coisas’, no que respeita a origem, possibilidades e destinos artísticos. Admirar e comunicar com essa suposta ausência, representando-a através do concreto pelo meio do abstracto tornou-se a magia do trompetista. Token ou Ra Clock ofereceram importantes acréscimos para que o público pudesse acompanhar então este admirável universo em suspensão. Tal ousadia valeu-lhe um misto de incompreensão e desconfiança por parte de alguns ouvidos que no entanto nunca abrandaram ou desmotivaram a continuidade de um laboro que só e apenas mereceria delapidar o desconhecido e assim encontrar o belo e o profano, lado a lado. Nos últimos anos rodeou-se de um núcleo duro, embora variável, composto pela companheira de larga data Fala Mariam, pelo percussionista César Burago e pelo guitarrista Pedro Gomes – com quem gravou o excelso Turbina Anthem, disco de escuta obrigatória. De notar ainda o capítulo do ensemble rock O Carro do Fogo, outra figuração ímpar no seu maravilhoso mundo em constante expansão. Nesta deslocação ao Aquário, Sei traz o novo álbum (Five) Stories Untold. Com edição da imparável Clean Feed, este é mais um capítulo chave na sua discografia, mais uma peça para melhor entender a linguagem transversal e ímpar de um artista que já dispensa apresentações de maior. Imperdível, como não poderia deixar de ser. NA

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    Formação: SM (trompete, escrita e direcção) | Fala Mariam (trombone) | Pedro Castello Lopes (percussão) 

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    + info: Clean Feed RecordsSpotify | Ípsilon | ExpressoWire

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    Entrada: 6€ | Bilhetes disponíveis na Tabacaria Martins, Flur e bilheteira da ZDB em dias de concerto * | reservas@zedosbois.org

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    * Os bilhetes adquiridos nas lojas têm uma comissão de 0,50€