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  • 17 de Dezembro 2016

    Reedição do álbum Independência de Teta Lando (Angola)

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    Independência é o LP que o grande Alberto Teta Lando gravou em Luanda no final de 1974, um ano antes da independência de Angola. Teta canta as aspirações do seu povo, sublimando as dores e as tristezas através da esperança. Lamentos e danças expressam o desejo de união e paz. A voz de Teta apoiada pelas violas de Zé Keno, Carlitos Vieira Dias e Zeca Terylene e pelas percussões de Joãozinho Morgado, Gregório Mulato e Vate Costa, projeta os ritmos e as harmonias da sua terra pelo Mundo.

    42 anos depois, o mítico Independência, é simultaneamente apresentado em França e Portugal, pela Fanon Records de Emile Omar, programador da lendária Radio Nova (Paris). Emile prossegue a sua obra de divulgação das músicas de todos os trópicos.

    Esta noite será dedicada a Alberto Teta Lando um dos pais da música angolana moderna, falecido em 2008. O serão começa em forma de homenagem, onde os amigos e companheiros sublinharão quanto Teta e sua obra marcaram várias gerações de músicos em Portugal e Angola. A noite prosseguirá com um pequeno concerto de Firmino Pascoal e convidados interpretando temas de Teta Lando e finalmente haverá músicas da África, da Caribe e do Mundo tocadas pelo DJ Emile.

     

    teta-lando.

    Programação
    22h00 – Início da Celebração
    23h00 – Conversa com Ariel de Bigault  + mais convidados (Angola) e algumas musicas a rodar do album ‘Independencia’.
    23h30 – Firmino Pascola interpreta Teta Lando
    00h45 – Emile Omar dj set *

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    O Canto de Esparança de Teta Lando
    Alberto António TETA LANDO é um dos pais da música angolana moderna. ‘Independência’, primeiro LP produzido em Angola, em 1974, um ano antes da independência, é um manifesto musical visionário. Teta Lando expressa os sofrimentos e as esperanças da geração que acabou com 500 anos de domínio português. A sua vida e a sua obra abraçam o destino do seu país, marcado por tragédias e dilacerações. Batidas surdas e tons menores sustentam gritos de dor e ímpetos de alegria. As harmonias das violas tecem a melancolia e a esperança. Independência projeta os ritmos e as danças de Angola nos sons do mundo.

    Teta Lando ergue com orgulho a herança bakongo do Norte de Angola. Nasceu a 2 de junho de 1948 em São Salvador (Mbanza Congo) e cresceu em Carmona (Uige). É o 28° dos 32 filhos de Alberto Teta Lando, bakongo, dono de plantações de café, muito rico e respeitado. A sua mãe, Maria da Conceição, muito mais jovem que o marido, é parente do último Rei do Congo; mestiça e católica, culta e música, ensina o filho a tocar violão. “Comecei a compor, inspirando-me dos cantos e ritmos bakongos. A minha mãe transmitiu-me o repertório de San Salvador,” o grupo de Manuel de Oliveira que participou na explosão musical dos anos 50 em Léopoldville.

    A voz de Teta sublima o lamento, melopéia com origem no lundum. Esta dança sensual e melancólica dos congoleses deportados no Brasil evoluiu, com acompanhamento de violas portuguesas, tornando-se um canto da alma do qual provêm a Modinha, o Fado, a Morna e, em Angola, o Lamento. A batida surda é do coração. “Um Assobio meu é para esquecer minhas tristezas, o que não posso dizer”, canta ele no seu primeiro sucesso Mumpiozo Ame (1969).

    O desespero abateu-se sobre Teta quando ele tinha 13 anos. Em Março de 1961, no Norte, os militantes da União dos Povos de Angola, revoltados por exacções dos Portugueses, massacram dezenas de colonos. O ditador Salazar ordena retaliações sangrentas. “O meu pai apoiava a UPA. Os Portugueses assassinaram-no e plantaram a sua cabeça em cima de um pau. Tomaram as suas terras.” As pungentes inflexões de Luvuvamo e Poto Poto expressam imenso sofrimento. Luvuvamo: “Alegria, onde estás? Paz, onde estás?” Poto Poto: “O homem vem da terra, vive da terra e retorna à terra.”

    A sua mãe, preocupada com o desespero e a revolta do filho, resolve enviá-lo para Lisboa. Lá, o adolescente encontra artistas angolanos, Rui Mingas, Vum Vum. Acompanha Elias dia Kimuezu e Lilly Tchiumba. Compõe Muadiakime com Bonga que este gravará no Angola 72 e que será interpretado por Martinho da Vila. “Em Portugal, descobri novas harmonias.”

    Quando ele regressa em 1968, Luanda vive em grande efervescência musical. A capital está em pleno crescimento enquanto nas matas os combatentes independentistas enfrentam as tropas coloniais. O semba é então forjado em Luanda por músicos vindos de todo o país, que confrontam nos palcos as suas experiências e os seus talentos e cujos desafios criativos são transmitidos pela rádio Voz de Angola. Teta junta-se ao Africa Show do percussionista Massano. Grava vários singles, editados pelo selo Ngola da Valentim de Carvalho, impondo rapidamente seus talentos de autor-compositor-intérprete.

    As danças Lembele e t Lulendo Mpaxi retratam bem o ambiente festivo dos Clubes da época. Lembele lança advertência a uma menina: “Cuidado, não te percas por maus caminhos!” Cecilia é um lamento de amor pela jovem luandense com quem casou e que acabou de dar-lhe um filho. “Não ligues aos mexericos dos invejosos. Só gosto de ti.” Vão viver em Uige, no Norte. Teta volta regularmente à Luanda para dar shows e gravar.

    O golpe militar de 25 de Abril de 1974 em Portugal abre caminho para o fim da guerra colonial e liberta as energias. Em Setembro, Teta grava Independência para a Companhia de Discos de Angola, criada por Sebastião Coelho. O director musical é o grande guitarrista Carlitos Vieira Dias, filho de Liceu Vieira Dias, do lendário Ngola Ritmos. Escolhem instrumentistas nos diversos grupos: na viola solo Zé Keno dos Jovens do Prenda, na viola ritmo Zeca Terylene do Africa Show, nas percussões João Morgado dos Negoleiros do Ritmo, Gregório Mulato das Águias Reais e também Vate Costa dos Kiezos. Carlitos toca baixo. A dinâmica e os arranjos desta excepcional formação, os Merengues, marcarão uma geração de músicos.

    ‘Independência’, disco de ouro, é um imenso sucesso. Em lamento ou semba-rumba, Teta expressa suas convicções humanistas e fraternais: Pele escura anuncia o fim dos sofrimentos dos Negros. Angolano segue em Frente, Irmão ama o teu irmão, FNLA-MPLA apelam para a união dos Angolanos pela independência e a paz. Este grito de alerta é premonitório. Em Outubro de 1975, um mês antes da declaração da Independência pelo MPLA de Agostinho Neto, Teta, ameaçado devido à sua proximidade com o FNLA bakongo, tem que fugir com mulher e filho para o Zaire.

    Em Kinshasa ele trabalha como taxista e canta com Franco e o OK Jazz. Em 1979, a família instala- se em Paris onde Teta gravará Eu vou voltar (81), Semba de Angola 83), Reunir (88) e Esperanças Idosas (93). Só volta na sua terra em 1989, dividindo-se a partir de então entre Luanda onde cria uma editora de discos, e Paris onde residem a mulher e os filhos. Faleceu aos 60 anos, em julho de 2008, em Paris. Os seus talentos de compositor e intérprete, a sua generosidade e o seu humanismo têm firmado os seus traços nas músicas de Angola das últimas décadas.

    Texto de Ariel de Bigault

    Agradecimentos a Cecilia e Maysa Teta Lando
    Agradecimentos a Lulendo (Paris), Gilberto Junior (Luanda), António Rodrigues (Lisboa)

     

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    Produção: CelesteMariposa
    Sediado em Lisboa como editora e promotora da cultura dos PALOP.

    Entradas: 6€ | Bilhetes disponíveis na Tabacaria Martins, Flur Discos e ZDB (noites de concerto) | reservas@zedosbois.org