• CONCERTOS
  • Quarta, 20 de Março às 22h

    Puce Mary | Rui P. Andrade & Aires

    Puce Mary

    Como se a física quântica de Bohr, a fragilidade humana de Von Trier ou os contos de Christian Andersen não fossem suficientes, também a dinamarquesa Puce Mary parece explorar a imaginação e a possibilidade; quase indissociáveis, até. A criação de espaços mentais ou a sinestesia gerada pela sua arte, são resultados tão naturais quanto inevitáveis, de quem decide romper com uma realidade familiar, confortável e apaziguadora. Na verdade, tudo elementos antagónicos na obra The Drought, possivelmente um dos discos mais desafiantes que escutámos o ano passado – e um motivo forte para continuar a segui-la nos próximos.
    Membro do colectivo Posh Isolation, um dos epicentros da nova música europeia, ela reúne-se de um campo magnético de ruído e electricidade estática como habitat de uma música, que há falta de outro termo, simplesmente se definiria como transgressora. As escutas e suas percepções a quente, poderão indiciar uma reinterpretação per se, de tantas outras encarnações do noise ao industrial; fale-se de Whitehouse, estabeleçam-se elos com os Wolf Eyes e nunca se esqueça do enorme contributo dos Throbbing Gristle a todo este viveiro. Nomes que fazem sentido para entender numa primeira abordagem, mas que se esvanecem, com subtileza, quando a real audição avança – e eventualmente se perde nesse labirinto de tensão e suspense que a artista cuidadosamente constrói.
    Ainda que o ponto de partida se faça através de uma estética atonal e desconcertante, não se poderá limitar um disco como The Drought apenas a cunho de cinco letras; e se existe vida para além desse cunho noise, Puce Mary materializa-o. E trata-se de um laboroso de composição e empatia, sabendo extrair sensações e provocar algo desconhecido através de sons em estado bruto. Nada surge de forma gratuita e cada momento parece assumir-se como uma forma vital num todo. Até mesmo a capa de The Drought se apresenta altamente sedutora e profana (em iguais proporções), digna de um enigmatismo que só tende a crescer com o mergulhar neste buraco negro.
    Em palco, partilha uma experiência próxima de uma natureza ritualista. Surge munida de uma extensa maquinaria e presença plena de urgência – abrindo fendas em redor. É com enorme entusiasmo que a ZDB a recebe e a celebra. NA

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    Rui P. Andrade & Aires

    Dois madeirenses com rodagem vasta na cena experimental nacional, Rui P. Andrade & Aires voltam a juntar-se depois do concerto de abertura da última edição do MadeiraDIG, no fim do ano passado. Já trabalham juntos desde 2015, ano do lançamento do manifesto harsh noise ‘Pânico-Ambiente’. Entretanto, amansou-se o pânico, esticou-se o ambiente. O foco do duo mudou – primeiro a cartografia sonora da ilha da Madeira, depois os vapores melancólicos entre o drone e o ambient. Enquanto um (Rui) explora os mistérios das baixas-frequências ultra-processadas aliadas a emoções cruas, o outro (Aires) desbrava a película invisível do mundo digital, entre o uncanny e o néon. Entre ambos desdobram-se mãos cheias de lançamentos, e de onde se perfilam colaborações com artistas como Bernardo Álvares, Sal Grosso, Dino Spiluttini e editoras tão diversas quanto a ACR, Genot Centre e Bad Panda.

     

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    Entrada: 8€ pré venda | Bilhetes disponíveis na Flur DiscosTabacaria Martins e ZDB (segunda a sábado 22h-02h) | reservas@zedosbois.org

    * As reservas levantadas no dia têm o custo de 10€.