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  • 21 de Março 2017

    Not Waving | Serpente

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    Not Waving
    Num presente repleto de consumos instantâneos e mudanças profundas na indústria musical, a hiper actividade parece ser uma legítima solução de (sobre)vivência criativa. A confluência de papéis na autoria, edição ou promoção artística estabelece-se, naturalmente, como uma inevitabilidade nesta equação. Pelo nome próprio, muitos não o associarão a um projecto específico, mas facto é que as múltiplas direcções de Alessio Natalizia têm-se feito notar ao longo da última década. Da pop caleidoscópica de Banjo or Freakout, à house borbulhante de Walls, torna-se árdua a tentativa de perfilar afinal a real identidade do irrequieto músico italiano – e por consequência adivinhar que passos se seguem. Enquanto divulgador de um conhecimento musical enciclopédico, pode ser escutado mensalmente na rádio NTS, mantendo ainda fervilhante as edições que vai apadrinhando na sua editora Ecstatic. Acompanhá-lo neste frenesim é sinónimo de uma incursão genuínamente pedagógica, mas igualmente pujante e admirável, por uma diversidade de épocas e estilos insondáveis.

    A arte de orquestrar sem batuta tantos elementos numa passadeira de veludo já gasta pela dança, é um ganho maior no seu alter-ego Not Waving. Claro que o conceito de orquestração deve ser entendido do modo mais politicamente incorrecto possível; a ausência de rede, a tomada de oportunidade pelo erro ou a sobreposição tirana de camadas e mais camadas sonoras explicitam o carácter visceral de uma linguagem electrónica de corpo. Quanto à aura anímica, e a tudo o que bombeia para fora, dir-se-ia existir um intuito de experimentação e observação em redor. Nada de totalmente novo tendo em conta que Natalizia passou anos a estudar psicologia e a devorar dissertações de Oliver Sacks, Ivan Pavlov e uma inesgotável bibliografia de ficção científica. O armamento inteligente e incisivo de Not Waving poderá sugerir uma encarnação infinitamente mais negra, paranóica e perigosa de uns LCD Soundsystem. A comparação soará falaciosa para alguns, contudo entre ambos alinham-se alguns importantes pontos cardiais. Se por um lado se tacteia uma certa recontextualização histórica de géneros comuns como a disco, techno ou punk rock, por outro estamos a abordar duas figuras, distintas nos seus campeonatos, embora unidas pela inquietude e constante investigação. A esquizofrenia bem vinda de Natalizia nunca permitirá alcançar os palcos megalómanos de Murphy, mas que tenhamos presente que as melhores caves e clubes desalinhados deste mundo dificilmente encontrarão melhor anfitrião neste exacto momento.

    Editando a sua música em todos os formatos possíveis, este processo ongoing de resgate temporal e ponte para algo indefinido também se tem feito de brilhantes reuniões de força. A mais notória é a investida com o mago Pye Corner Audio. Uma colossal selecção de telas ambientais cujo negrume e nível de perigosidade o colocaram num local demasiado especial para ser esquecido em tempos futuros. Quanto à trilogia ‘Voices’ e o longa duração ‘Animals’ só reforçaram o valor de Not Waving enquanto fonte suficientemente convincente e certeira para a maior admiração possível na esfera da música electrónica – e o convite de Powell para gravar na sua label, ou mesmo a passagem fervorosa no Boiler Room, deixaram-no claro. Lá mergulhamos nos sintetizadores, drum machines analógicas e pedais vários em jeito de clubbing macumbeiro. Que seja oficial: a melhor rave deste 2017 já tem local e dia marcado. Façam-se as diligências necessárias. NA

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    SERPENTE
    Serpente
    Com uma cartografia em constante mutação, Bruno Silva tem-se tornado um nome essencial na música de carácter mais exploratório. As potencialidades da sugestão e da sinestesia, mais que a forma em si das coisas, alinha-se a esse sentido inquisitivo que tão bem domina sob o seu alter-ego Ondness. Com uma progressiva repercussão além fronteiras, o seu trabalho tem merecido as chancelas de labels tão respeitadas como a Opal Tapes, Where to Now? ou Paralaxe Editions, entre outras – na verdade, pequenos grandes bastiões da electrónica actual (isto claro, sem esquecer o valiosíssimo output enquanto membro do duo Sabre).

    Serpente é agora uma nova identidade de Silva cujo nome ainda dará que falar nos próximos meses. O disco de estreia ‘Rituais 101’ tem lançamento previsto na Reitoria Edições e traz maioritariamente coordenadas associadas ao techno ou ao dub, através de um filtro muito único. A paranóia urbana e os seus delírio ascendem aqui a uma dimensão mais física que anímica. Denota-se antes de mais uma forte presença rítmica, adornada por ecos, delays ou uma engenhosa samplagem, num registo que tanto enfeitiça quanto desnorteia desde o primeiro instante. No fundo, um objecto maravilhosamente bastardo à espera de uma descoberta urgente. NA

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    Entrada: 8€ | Bilhetes disponíveis na Flur, Tabacaria Martins e ZDB (quarta a sábado, 22h-02h) | Entrada livre a sócios| reservas@zedosbois.org