• CONCERTOS
  • 8 de Março 2014

    Norberto Lobo & João Lobo


    © Vera Marmelo

    Entre todo um conjunto de abordagens à sua pessoa artística, a intensidade da beleza no trabalho de Norberto Lobo talvez seja aquela que mais se expõe e mais permanece um factor constante. Tecnicamente irrepreensível, dotado de uma sensibilidade especial enquanto guitarrista, encontra recantos e cria espaços em cenários já de si deslumbrantes e heterogéneos. Esse cunho pessoal tem-se apurado com o tempo e da mesma forma que o caracteriza na sua condição de executante, também o determina no papel de criador. Faz algum sentido pegar na figura de Norberto para entrar mais a fundo nesta outra encarnação, ao lado de outro Lobo. O motivo óbvio prende-se com a familiaridade que já detém junto de um público cada vez mais vasto, há muito além das fronteiras nacionais.

    Perante um trabalho material e espiritualmente elaborado à base da soma de parcelas, transparece acima de tudo a convergência comunicativa entre ambos. Um deleitoso diálogo em que a guitarra de Norberto traça a forma e a bateria de João acrescenta a cor e o relevo – não necessariamente por esta ordem de papéis. É sabido que a cumplicidade criativa a este nível dificilmente poderá ser recente ou fácil de encontrar no dia-a-dia, e nesse aspecto, para melhor a entender, há-que recordar a amizade e colaboração entre os músicos há mais de uma década.

    ‘Mogul de Jade’ é um daqueles registos onde a grandiosidade e a honestidade se revelam em doses equivalentes. Ainda que paire um ou outro detalhe comum ao trabalho de Norberto Lobo a solo, a linguagem aqui presente é maioritariamente externa. Articula-se por meio de uma dinâmica quase corporal, feita de fôlegos, reflexos e sensações. De sangue orgulhosamente nómada, o duo inspira ventos do oriente, colhe ecos do blues ou expressões do jazz e acaba por assentar arraial num território tão livre quanto a sua entrega. Se por momentos lembram, a espaços, as ascensões de Sun City Girls ou Flower-Corsano Duo, noutros aproximam-se das lendárias paisagens áridas de Ry Cooder . Claro que não existem rotas concretas, apenas flashes mais ou menos reconhecíveis, que eventualmente nos poderão abrir caminho para a real descoberta. E ela estará aí, diante de nós.

    Após a apresentação integral do disco em Agosto passado, o duo regressa agora ao Aquário para interpretar, em primeira mão, os temas recentemente compostos. Um concerto de reencontro, mas principalmente cheio de novidades à espera de serem reveladas. NA

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