• CONCERTOS
  • 9 de Setembro 2017

    Nite Jewel | Veer

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    Nite Jewel

    Já são muitas as vidas de Nite Jewel. Disco após disco, a progressão criativa acontece, sem sobressaltos ou transformações de maior. Acontece antes como um corpo de trabalho em fluxo, ou seja, de aglutinação de ideias, de revalorização do passado e fruto de diversas colaborações. Como as genuínas, continua a seduzir, a surpreender e a oferecer-nos insistentemente mais razões para acompanhá-la. Um sonho pop tornado realidade.

    Atravessando esta última década com uma subtileza exemplar, Ramona Gonzalez soube cativar a quem nela imaginou as melhores malhas electro-pop e soprou muito do pó – e algum do preconceito – em redor de uma matéria musical entretanto esquecida ou até desconsiderada. Na sua genética plana uma noção que tanto se revê no funk digital como na soul mais aquosa (reservando para si o melhor de cada mundo). As melodias recuperam o veludo perdido e a sua voz reencontra-se com uma melancolia contemplativa by night. Não faltam os néons e o fumo do cigarro abandonado num cinzeiro. Estes e outros elementos conduzem-nos a um certo delírio, fortemente imagético ou até mesmo cinematográfico, que a própria incute em cada produção.

    Na primavera deste ano surgiu o quarto álbum após um trio prateado, donde ‘Good Evening’ foi a primeira jóia – e cujo brilho ainda inspira. Mais próximo que nunca de um território de infusão R&B, ‘Real High’ é esplendoroso – e faz questão em sê-lo. De certo modo, revisita específicamente a década de 90 com a mesma naturalidade que nos habituou a reconhecer o boogie de tempos antecedentes. Seria injusto afirmar que Nite Jewel encontrara aí uma fórmula pois as latitudes da sua música expandem-se para lá disso. O que existe efectivamente é uma certeza de um discurso estilístico, relativamente identificável num espaço e tempo, que se reconfigura. Neste novo conjunto de canções é inegável esse sentimento de déjà vu, seja sob o signo de Nite Jewel ou mesmo em qualquer outro. Porém, é o tipo de obra resultante de uma franca depuração e entrega que também logra alcançar um almejado efeito de assinatura própria.

    Como já vem sendo uma felicidade habitual, muitas das novas faixas captam um potencial de clássico instantâneo. Trazem a naftalina e a descoberta infinita de uma cave vintage, pelo apelo enigmático e imediato que produzem. ‘Real High’ provavelmente aproximará os amantes eternos do seu álbum de estreia pelo facto de se distanciar do electro de alta fidelidade de ‘One Second Of Love’ ou até do anterior ‘Liquid Cool’. É óbvio que essa experimentação de delimitações permitiu-lhe igualmente uma maior segurança no que se revê como a sua expressão. Nesse aspecto, é legítimo pensar neste regresso como a sua melhor obra. Soa a tudo que quiséssemos que soasse em Nite Jewel e, aparentemente, mais ninguém poderia replicá-la.

    Oficialmente transporta onze temas que certamente não se esgotarão no consumo imediato. Sobreviverão no quotidiano de cada um de nós, de modo consciente ou não. ‘Had To Let Me Go’ é uma simples ilustração do que até aqui se tem feito transmitir: a suavidade de uma balada absolutamente perfeita, entre os ecos de Sade e Janet Jackson, só possível de escutar, neste momento, pela voz de Gonzalez. Mais não fosse por isso e já seria único motivo para celebrar este retorno. Mas há mais, bastante mais, numa das audições mais prazenteiras de 2017. Sem ninguém o esperar, assim caiu o último disco de Nite Jewel, fruto exótico de uma árvore ainda mais peculiar. De resto, o melhor clube nocturno da cidade nessa noite será aqui mesmo, na sala Aquário. NA
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    Veer
    ‘Veer são Vera Vaz e João Farmhouse. Para trás ficou o inverno, cinzento e frio; chegou a Primavera e, com ela, duas vozes e dois instrumentos: um teclado, com uma sonoridade incisiva, marcada pela ocasional rebelião; e uma guitarra que varia, entre a inquietude e a suavidade cristalina, resultando em melodias que nos envolvem numa nostalgia cúmplice.’
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    Entrada: 8€ | Bilhetes disponíveis na Flur DiscosTabacaria Martins e ZDB (segunda a sábado 22h-02h) | reservas@zedosbois.org