• CONCERTOS
  • Terça, 5 de Novembro às 21h

    Nivhek — Igreja de St. George

    Acompanhar a obra de Liz Harris é acompanhar uma belíssima cerimónia ongoing. A sua extensa discografia, maioritariamente enquanto Grouper, deverá ser merecedora da mais real devoção. Há um magnetismo muito genuíno em cada um dos seus discos e projectos, estabelecendo uma linguagem que não pode, nem deve, ser inserida num mundo delineado por formas imediatamente reconhecíveis. Isto porque na música de Harris existe sempre algo para além da aparência ou do lado físico; existe algo de simplesmente intangível e associado a uma percepção espiritual, se assim o quisermos definir. É desse universo povoado pela condição humana e desolação emocional como motor, que as suas composições a guitarra, piano ou voz chegam até nós – sempre em estado de graça. Música cujo adjectivo sagrado corre o risco de a colocar numa posição algo suspeita, mas imensamente justa (a existir justiça nas palavras, claro). E tem sido assim há já década e meia, a solo ou ao lado de outros talentos como Xiu Xiu, Roy Montgomery ou Lawrence English, entre tantos outros.

    Nivhek surge como uma espécie de entidade paralela em relação ao seu percurso sob Grouper. Resultado de uma residência artística nos Açores, fruto de uma colaboração entre a ZDB e o Festival Tremor, o disco duplo After its own dead/ Walking in a spiral towards the house soa definitivamente arrojado como nunca soara antes e apresenta este novo capítulo da melhor forma possível. A decisão de Harris o ter gravado sob outra designação que não a habitual, parece fazer sentido. Ainda que trazendo à memória o colosso que foi Ruins, nada do que aqui escutamos se aproxima remotamente do formato de canção. Mesmo sendo certo que também nunca foi exactamente essa a sua abordagem, deparamo-nos por aqui com outras (multi)dimensões e uma obra imensa em tantos os sentidos quanto os possíveis. É um álbum que, antes de mais, surgiu de surpresa, e dada a sua natureza e forma, requer entrega suficiente para nos perdermos em cada canto. Pleno de field recordings, pequenos e surpreendentes detalhes, momentos de igual melancolia e beleza como só ela tão bem sabe criar, abre-se o inevitável caminho para revelações maiores. Sabemos que estamos perante uma proposta diferente, traduzindo-se naquele que é o exercício mais desafiante de Harris até hoje, como se de uma instalação sonora se tratasse. A sua estrutura não convencional relaciona-se a certo um entendimento holístico de cada elemento, numa quase narrativa de teor surrealista. A título de curiosidade, conta ainda com as participações do artista multidisciplinar Christopher Reid Martin, de Gabie Strong e ainda de Michael Morley (The Dead C) no lado B da edição, num dos momentos chaves desta oferenda. Por esta altura existe já um elo muito familiar entre Liz Harris e a ZDB num plano de admiração e colaboração contínuas. Neste regresso, apresenta-se, pela primeira vez, no magnífico cenário da Igreja St. George acompanhada por um músico convidado. Um distinta ocasião que é um acto de
    partilha. NA

     

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    Entrada: 15€ | Bilhetes disponíveis na Flur DiscosTabacaria Martins e ZDB (segunda a sábado 22h-02h) | Não aceitamos reservas para este concerto