• CONCERTOS
  • 9 de Janeiro 2016

    Nerve

    NERVE 1 - 72 dpi

    Trabalho é trabalho e conhaque é conhaque, mas será mesmo que a vida não presta e não há por aí quem mereça a nossa confiança? Se se procurar alguém que troca a ordem das palavras e das ideias, que nos oferece visões (des)informadas da paranóia, da truculência interior, de um quotidiano que pode ser exasperante, de uma realidade em que ninguém acredita por ser tão absurda, então pode-se garantir com total segurança que Nerve, como em tempos Leonard Cohen, outro céptico profissional, é o vosso homem.

    Trabalho & Conhaque ou A Vida Não Presta & Ninguém Merece a Tua Confiança é, sem dúvida, um dos mais refinados exercícios musicais produzidos este ano em Portugal. A suportar esta afirmação está a profunda inteligência das suas letras, que buscam inspiração em Andy Kaufman e noutros génios/loucos que escapam à esfera imediata do hip hop: Nerve constrói um delicado rendilhado de ideias, faz ginástica admirável com o som e o sentido, e cospe tudo com a classe do  cowboy que do fundo do salloon consegue atingir com o seu tabaco mascado o escarrador ao pé do balcão. Sem espinhas e com aquele ressoar metálico que gritaria “três pontos” se estivéssemos a falar de basquete em vez de uma cena digna de Sergio Leone.

    O álbum com que Nerve exigiu toda a paciência de santo do mundo aos seus fãs, que aguardavam sucessor para Eu Não das Palavras Troco a Ordem desde 2008, traz mais argumentos para lá da desenvoltura poética e conceptual: sonicamente é um valente murro no estômago, com beats assinados por estetas de um novo paisagismo musical no hip hop como Pedro, o Mau, Notwan, Keso ou o próprio Nerve. Beats que procuram outras texturas, que se divertem a explorar a sombra no quarto escuro das frequências, de uma densidade monocromática que contrasta com a explosão de cores das palavras e a ginástica rítmica dos flows.

    É isto que Nerve vai finalmente apresentar na ZDB: sem rede, sem filtros, sem tiques ou truques, apenas com a segurança de quem sabe que trabalho é trabalho e conhaque é Remy Martin, se tivermos sorte e concluirmos que a vida até presta e que há afinal de contas quem merece a nossa total confiança. RMA

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    Entradas: 6€ | Bilhetes disponíveis na Flur e Tabacaria Martins