• CONCERTOS
  • Quarta, 14 de Fevereiro às 22h

    Josephine Foster | Ka Baird

     

    Josephine Foster

    Há vozes que se reconheceriam em qualquer lugar, em qualquer momento, em qualquer condição. E não serão tantas assim. Josephine Foster soa milagrosamente anacrónica, despertando a memória e a imaginação de quem a escuta. Bastaria isso para que meio mundo lhe fizesse uma vénia, mas teima em não se apresentar sem a presença da sua guitarra. Uma embala a outra – não se sabe quem exactamente, e é maravilhoso que assim seja. Essa indefinição de papéis, de linguagem e da tal localização temporal referida, convergem numa identidade e obra peculiares. Olhando para trás, já nos ofereceu um pouco de tudo: folk neo-romântica, blues de meia-noite, canções infantis, rock cósmico, inspirações líricas em Emily Dickinson ou até mesmo na lieder, estética poética alemã do século XIX (no inesquecível ‘A Wolf in Sheep’s Clothing’). A graciosidade com que pousa num ou noutro registo torna-a numa expressionista pura.

    Numa época presente de songwritters em abundância, uns de passagem, outros de maior permanência, a já extensa obra de Foster é um porto seguro de deslumbre e paixão. Mesmo quando cada disco parece devidamente reconhecido, ressalta sempre um ou outro pormenor cuja ouvido, ou a cabeça, tratou de ofuscar nas primeiras incursões. Descobrir ou redescobrir a sua música são duas, aparentemente distintas, formas de fascínio. Com frequência carrega consigo contos e fábulas à luz ténue de uma vela e estende uma passadeira a viagens imaginárias só possíveis a quem tem esse dom de narradora irremediável. Replicá-la é uma tarefa impossível, e por esse motivo Josephine Foster é uma espécie de irmã afastada dessa pérola eterna chamada Karen Dalton.

    Depois de um deslumbrante concerto no teatro Maria Matos, em apresentação de ‘No More Lamps in the Morning’, a possibilidade de voltar a encontrar num palco é um daqueles convites irrecusáveis, tamanha é a dimensão desta presença. NA

     

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    Ka Baird

    A trip to memory lane: meados de 2000. Os Animal Collective saíam de um período de experimentação mais crua para um um aprumo pop chamado “Feels”; a Volcanic Tongue, de David Keenan, assumia-se para além do simples papel de loja de discos para dar lugar a uma plataforma, de primeira linha, de uma infinitude de artistas do submundo do psicadelismo, do noise e demais fontes incatalogáveis; os Les Rallizes Dénudés, ganhavam – décadas depois – um merecido reconhecido de culto; e no meio de um período fervilhante, um quarteto feminino norte-americano tratou de levar um corpo musical entre o punk e a folk a um lugar que tresandava a paganismo, esoterismo e toda uma imagética estranhamente magnética. As Spires That in The Sunset Rise surgiram então como uma reencarnação das The Raincoats em modo “Bruxas de Salem” gravando seis soberbos discos, cada um detentor de poderes fora deste mundo.

    Ka Baird é, nada mais, nada menos, que a mentora desse colectivo que assombrou a restante década. Infelizmente nunca para saíram de um circuito menor, mas permanecem em actividade, para jubílio para todos os apreciadores de “Marble Index” de Nico. Baird veio nos últimos anos a traçar um percurso a solo, necessariamente diferente da sua banda, todavia de uma linhagem familiar. Teve o bom gosto de compor um disco tributo a “Love Supreme”, do mestre Coltrane, em comemoração dos cinquenta anos do seu lançamento e traçou um alter-ego apelidado de Sapropelic Pycnic, para maior (des)orientação biográfica – e abertura de outras latitudes.

    O álbum homónimo que viu luz o ano passado, trouxe o luxo do negrume ao filtro tecnicolor. Das notas de pianos, densas e soltas, cruza-se o xamanismo dos sopros e os registos paranormais da voz de uma artista em estado híbrido. Mas não é tudo; borbulha também, em fogo lento, a electrónica que faz estalar a matiz jazzística das suas composições livres, dignas de quem busca apenas um sagrado objecto exótico. Os silêncios aqui adquirem uma nova forma, suspendendo cada estilhaço em redor de uma hipotética canção de vulcões, fantasmas e lua cheia.

    Ka Baird é, por si só, uma genuína poção mágica. Não trará sonhos cor-de-rosa a ninguém, no entanto é aquele filme bizarro que todos anseiam ver. NA

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    Entradas: 8€ |Bilhetes disponíveis na Flur DiscosTabacaria Martins e ZDB (segunda a sábado 22h-02h) | reservas@zedosbois.org