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  • 25 de Julho 2017

    Jards Macalé | Ricardo Dias Gomes

    jardsJards Macalé
    Nascido Jards Anet da Silva no bairro da Tijuca em ambiente familiar musical, Macalé é um dos verdadeiros heróis da música brasileira – e nem corremos qualquer risco de hipérbole ao escrever isto. Sem o reconhecimento generalizado de alguns dos seus contemporâneos, mas amplamente citado e reverenciado pelos mesmos e demais horda de apaixonados pelo impressionante legado cultural do Brasil, Jards Macalé tem deixado um rasto discreto e pausado mas de importância social e histórica fundamental para a compreensão do mesmo.

    Eterno agitador em desalinho com quaisquer tendências ou cenas, demarca-se por uma consciência política e social constante, onde o seu discurso afiado se une a uma certa crueza sonora de acerto simbólico. Apesar de inicialmente alinhado com as ideologias do tropicalismo colaborando com Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa, viria a romper essa ligação por achar que este tinha perdido a sua autonomia perante a indústria musical. Longe da orquestrações oníricas e dos arranjos intrincados de alguns dos clássicos do movimento, o álbum de estreia homónimo de 1970 aponta desde logo para essa cisão, numa música igualmente voraz no modo como faz convergir linguagens – jazz, blues, bossa, samba – mas despida de artifícios, envolta na poeira da realidade circundante. Disco ousado e de uma urgência palpável, alvo de censura e de tiragem limitada, a traçar logo os passos vindouros.

    Arredado do sucesso comercial, instituiu um culto fervoroso em seu redor, através de álbuns como ‘Aprender a Nadar’ ou ‘Contrastes’ onde aprofundou a sua essência fusionista sem perder o contacto com as problemáticas sociais do país, mas que se transformariam numa romaria pelo deserto ao longo das décadas de 80 e 90, por entre o limbo editorial e um esquecimento geral infundado. Desse período, destacam-se os seminais ‘4 Batutas e um Coringa’ onde interpretou temas de Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho ou Geraldo Pereira numa sentida homenagem à verdade dessas canções e ‘Let’s Play That’ gravado com Naná Vasconcelos. Pérolas raras que urgem redescoberta.

    Mantendo ainda hoje uma saudável actividade, Macalé teve em ‘Amor, Ordem e Progresso’ de 2003 um surpreendente rasgo de luz continuado com ‘Real Grandeza’, ao mesmo tempo que canções suas como ‘Farinha do Desprezo’ ou ‘Negra Melodia’ ascendem a clássicos absolutos da canção brasileira. Contando também com canções oferecidas a divas como Maria Bethânia (Anjo Exterminado) ou Gal Costa (Vapor Barato), Macalé tem hoje um legado riquíssimo e de uma actualidade e pertinência inquestionáveis, à imagem da sua figura anarquista e continuamente contestatária para com a autoridade e a opressão. Exemplo de absoluta independência criativa que muito nos honra receber na ZDB. BS

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    RICARDO
    Ricardo Dias Gomes
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    Entrada: 8€  | Já não há bilhetes disponíveis nas lojas! As reservas não levantadas serão colocadas à venda a partir das 21h45!