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  • 2 de Julho 2014

    Guardian Alien | Equations

    Guardian Alien
    Depois de um ressurgimento, inesperado e fascinante, nos primeiros decénios deste século, o avant-rock (lamento, não me lembro de melhor termo) feito nos EUA voltou a esconder-se. Algumas bandas abraçaram de vez a electrónica, outras abandonaram a edição regular de discos ou simplesmente desapareceram. É a lei da sobrevivência musical, dirão os adeptos do progresso e da evolução. O futuro, insistirão, é da mistura global e imparável de estilos, melhor ainda, da eliminação de estilos. Felizmente há quem, quiçá alheio ao discreto “debate”, rejeite estes lugares-comuns, mantendo-se fiel às guitarras, à bateria e à voz, e sobretudo às histórias que estes intrumentos criaram em conjunto. Os nova-iorquinos de Brooklyn, Guardian Alien, por exemplo. Quando nasceram pareciam um projecto passageiro, daqueles que ocupam os músicos por um período determinado de tempo. Mas tornaram-se noutra coisa: numa banda. Agradeça-se a Greg Fox, ex-Liturgy, homem de colaborações avulsas (Man Forever, Zs ou C. Spencer Yeh), que manteve os Guardian Alien em estado da alerta com dois belos discos, “See the World Given to a One Love Entity” (2012) e “Spiritual Emergency” (2014). Naturalmente, não é o único a merecer encómios. Estes repousam também, com toda a justiça, sobre a(s) vozes e as performances da vocalista Alex Drewchin,  o sitar de Turner Williams Jr e as guitarras de Bernard Gann e  Eli Winograd. Na verdade, é justo dizer que o contributo de cada músico forma e consolida o som da banda. E é impossível separá-los, isolá-los. Há uma orgânica que se intui na relação entre as nuvens criadas pelo feedback, a percussão ora delicada, ora frenética, a presença alucinatória dos samples e dos  efeitos dos pedais. Mais revivalismos new-age? A referência ao sitar e o groove magro da percussão podiam sugerir esse desastre, mas nada disso. No mínimo poder-se-ia dizer que os Guardian Alien redimem, com a expressão da voz, com a energia da eletricidade, a fusão educada e a variedade rítmica dos Tortoise. Reparem no título do segundo disco. Se há hoje banda americana que merece ser seguida com espanto e fascínio é esta. JM

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    Fotografia de Vera Marmelo
    Equations

    De certo modo, parece inevitável que após um período dourado nas manifestações do denominado pós-hardcore em finais da década de 90/início de 00’s, surja uma nova fornada de músicos e público que viram aqui outras vias secundárias – por sinal, bem mais estimulantes – ao padrão punk rock. Esfera então iconizada pelos At The Drive-In, The Blood Brothers ou antes mesmo pela incontornável escola da Dischord Records, os portugueses Equations são um evidente resultado deste pilar sonoro.
    Embora jovens, cada elemento traz experiências passadas ligadas à música. É nesse prisma que cabem as ligações paralelas a outras bandas como Lydia’s Sleep, BEARS ou Death Without A Penalty (denominação inicial da banda). O resultado recai na forma inata como cada parcela acrescenta um pouco de si ao colectivo. Uma lógica que só poderia ser assim, dada a natureza multilíngue dos Equations. Como tal, dinâmica é palavra chave no seu código genético; pelo ritmos incertos, pelas construções melódicas, mas também pela sugestão de paisagens. Tudo converge, afinal, numa espiral em constante evolução. Se no álbum de estreia era notória uma energia efusiva, de contágio máximo por segundo, o sentimento no novo disco – com edição para depois do Verão – demarca diferentes estados de espírito por territórios inovadores. Traz igualmente a sensação que após a urgência de deixar um registo forte, vem a paciência e a curiosidade de quem não se resigna com a sua zona de conforto, ainda que alcançada com arte e suor. Geralmente, é através dessa posição que se dá a passagem para um patamar seguinte, onde novas ideias surgem. O que surge precisamente deste novo disco é quase uma nova banda, de face modificada, mas de perfil reconhecível. Canções a penderam para o lado instrumental, sem receio de flirts à electrónica mais progressiva e retirando o devido proveito das subidas a ar quente. Acima de tudo, revela boas surpresas a todos.
    Vislumbra-se um nobre desfile destas novas criações dos Equations na sala Aquário da ZDB, naquela que será a sua primeira vez neste palco. Muitos outros se seguirão, mas nenhum, para já, tão simbólico quanto este. NA
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