• CONCERTOS
  • 9 de Junho 2014

    Filipe Felizardo | João Doria

    Fotografia de Sara Rafael

    Filipe Felizardo
    Senhor de uma fé e convicção inabalável no trilho que tem vindo a criar com vista a uma dimensão guitarrística quase litúrgica, Filipe Felizardo trabalha com uma paixão e parcimónia pouco vistas num campo lexical que cada vez se assume mais como uma linguagem viva e só sua. Com uma devoção incondicional e calejada à guitarra, deixa-a habitar num limbo contínuo entre a conjectura e a sua refutação, às custas das suas premissas mais puras – riffagem, dedilhado, fraseado, repetição, a passagem e o silêncio. Ou como fazer coabitar a minúcia e a monumentalidade num mesmo espaço e tempo.

    Tempo esse que tem vindo a ser determinante na construção de um corpo de obra sempre coerente, mas alimentado pela necessária ruptura inerente aos incansáveis pela descoberta. Registadas as primeiras impressões em torno do drone no escapista Övöo, sedimentou-as de modo mais conciso em lII = 207.8°, bII = ?56.3°, ao mesmo tempo que abriu espaço para que uma música em que o gesto se assumia como uma identidade cada vez mais fundamental. A respiração necessária que, depois de descartada toda a parafernália de efeitos e a âncora do loop, se veio a revelar de modo imponente em Guitar Soli for the Moa and the Frog. Disco nascido da tensão beatífica entre o som e o silêncio, assume esses gestos como alavanca primordial para uma narrativa de notas lânguidas e intensas que se vão libertando a ferros em direcção a uma terra de ninguém. Coisa épica, construída de forma paciente e extática em Vol. III: O Water – O Dissolution – Before the Day of the Last Beginning incluída no split com My Life on Weekends editado pela portuense Wasser Bassin.

    Contando com algumas colaborações pelo meio, de onde se destaca  Três Sombras para um Cego com Margarida Garcia e Ricardo Wanke apresentado no Teatro Maria Matos, Felizardo regressa a este espaço que tão bem conhece para apresentar Volume II: Sede e Morte: Guitar Variations for the Thirsty and the Dead, com edição pela Three:four records. Reconhecendo as suas influências e fantasmas – ou insistindo em paixões – em Volume II: Sede e Morte estas são escancaradas nas homenagens a John Fahey, Peter Green e Carlos Paredes. Nomes que assombram a sua música, sem que se imponham trejeitos ou tangentes vazias, nem haja qualquer procura por fazer “avançar” algo que é afoito a progressões lógicas de evolução. Antes a assumpção de um papel numa dimensão sempre difusa onde se encontram também ilustres como Loren Connors, Bruce Langhorn ou Manuel Mota, que tem nos blues o esqueleto e alma daquilo que verdadeiramente interessa.

    Entregando-se à distorção com uma ferocidade pausada nos três temas que fazem o lado A de Volume II: Sede e Morte, Felizardo vai rasteirando o silêncio com golfadas sucessivas de notas que tanto se enredam num dedilhado feérico como se abandonam em suspensão. No outro lado, une-se a Norberto Lobo (convidado especial para este concerto) – em slide guitar – num alinhamento cósmico com vista a um pathos comum, de um lirismo insondável e sempre intrigante. Tudo palavras de respeito, mas com o peso certo para alguém que já foi descrito como o “mais poético dos guitarristas do burgo”. BS

    + Info: three four records | soundcloudípsilonshhpuma recordsfoxy digitalis

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    Fotografia de Vera Marmelo

    João Dória
    Espécie de falso guitar hero – elogio – da Cafetra, João Dória tem vindo a deixar uma marca nebulosa de melodias obtusas e solos enviesados em Passos em Volta e Putas Bêbadas, que se tem vindo a tornar cada vez mais reconhecível e pautada por um virtuosismo sempre contundente. A solo, amplificam-se essas formas num conluio livre, capaz de alinhar o espaço harmónico do John Frusciante com o ataque cerrado dos Royal Trux circa Twin Infinitives, num enredo irresoluto onde melodias solarengas – catchy naquilo que tem de mais far out – se vão espraiando um pouco para todo o lado, sem entrar pela histeria supérflua que dinamita muitas destas celebrações à guitarra. BS

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