• CONCERTOS
  • 4 de Abril 2014

    Excepter | Tropa Macaca

    Excepter
    Passada mais de uma década desde que o absolutamente essencial “KA” abençoou este mundo com uma música sem tempo nem lugar, ainda hoje pouco nos resta senão esperar dos Excepter que continuem gloriosamente a vaguear por essa terra de ninguém por eles idealizada. Unidade a vários níveis mutante, comandada desde sempre por essa espécie de street preacher xamânico que é John Fell Ryan – após ter abandonado a No Neck Blues Band – nunca se lhes reconheceu qualquer tipo de carácter mandatório que permitisse projectar uma trajectória de direcção definida, flutuando continuamente numa névoa cuja única identidade reconhecível será aquilo que se define no vazio com o som de Excepter – numa tentativa algo infrutífera lancemos coordenadas que passam pela noção de espaço do dub, kösmische facção Cluster/Harmonia ou alguma música de dança mais enviesada, filtrados por um instinto de improviso tão alienado e paranóico quanto devedor da boa onda de uma jam band. Talvez por isso, e ao contrário de alguns dos seus contemporâneos nascidos no efervescente melting pot de Brooklyn – como os Gang Gang Dance – cuja progressão se foi acoplando às canções, o estatuto da banda esteve sempre confinado àquele estado difuso e algumas vezes idiota que se apelidou de banda de culto. Mítico é um termo que lhes fica bem.

    Ainda assim, essa postura idiossincrática permite a quem tem acompanhado o percurso da banda, de modo mais ou menos afincado, traçar algumas ténues linhas condutoras. Tratando-se de um work in progress constante e irresoluto por natureza, os infindáveis concertos gravados ao abrigo da série “Streams” seriam o melhor meio para o cartografar, mas dada a intransigência dessa demanda, existem ao longo da sua discografia mais “oficial” os pontos necessários para tentar compreender esta vivência volátil. Com “KA” gravado na história dos clássicos pós-Y2K, e ainda contando com o casal de Calder Martin e Caitlin Cook nos quadros, dividem-se entre a trip de sofá hipnótica de “Throne” e o fluxo de consciência pós-dança de “Sunbomber”. Após a saída destes e a entrada de Jon Nicholson patenteiam as premissas base do seu som em “Sunbomber” e “Alternation”, e já com Lala Harrison e Clare Amory gravam aquele que é o seu álbum mais directo e efusivo – “Debt. Dept.”. Em “Presidence” fazem coabitar todas estas coordenadas ao abrigo de um colosso de mais de duas horas.

    Em 2011, a banda é afligida pela tragédia com a morte de Clare Amory vítima de cancro, passando o ano seguinte num regime de semi-obscuridade. Regressados aos concertos em 2013, lançam também um novo e muito recomendável EP intitulado ‘Christisland’. Duas longas excursões conduzidas por sintetizadores espectrais, que abrem caminho para um novo álbum – Familiar – a ter edição em breve pela Blast First Petite. Muito provavelmente não será uma bússola fidedigna daquilo que se irá passar no palco da ZDB. A única certeza é que estes nove anos que passaram desde que pisaram o Aquário foram demasiado longos para uma banda que se revela tão essencial. BS

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    Tropa Macaca
    Nave continuamente intrigante no arrojo e ousadia com que ousa conceber novas realidades, a Tropa Macaca tem vindo desde 2006 a desbravar o seu próprio trilho com uma visão e fé inabaláveis. Se ecos existem de outras músicas nas construções duo de André Abel e Joana da Conceição, estes são detectados por uma via quase anímica, refractados para além de qualquer concepção mais estanque. Repetição instável com vista à hipnose, nascida de um acerto simbiótico entre os sons da guitarra e da electrónica, transfigurados num fluxo sensorial de padrões melódicos difusos e ritmos esquivos. Ao longo destes anos, este trabalho foi sendo capturado com parcimónia em editoras tão meritórias como a Qbico, a Software ou a lendária Siltbreeze, como registos possíveis de uma narrativa em curso sempre fascinante. BS

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    Entrada: 8€ | Bilhetes disponíveis na Flur e  49 da ZDB (4ª a sábado; 22h às 02h) | reservas@zedosbois.org