• CONCERTOS
  • 19 de Abril 2017

    Daniel Bachman | Pedro Sousa

    bachman
    Daniel Bachman

    Segundo a crença popular em redor do simbolismo e da numerologia, o onze concentra uma energia magnética e espiritual associada à mestria de algo e/ou de alguém. Crente ou não nesta indicação esotérica, o álbum homónimo de Bachman traz à margem essas qualidades circunstanciais naquele que é precisamente o seu décimo primeiro trabalho de estúdio. O ponto onde se encontra hoje é fascinante; pelas sugestões que tem oferecido ao léxico do fingerpicking (meio sobrepovoado e perigosamente estilizado), mas sobretudo pelo fluxo criativo por ele alimentado na última década. Um guitarrista brilhante, do ponto de vista técnico, cuja arte não é estanque embora se saiba situar num espaço e tempo reconhecíveis.

    A entrega ao seu instrumento foi incondicional, passando anos a fio não a estudar o instrumento em si, segundo a tradição, mas sim a relação pessoal com ele. Como uma ampliação ou um anexo da sua identidade, Bachman trata cada corda como uma artéria, cada dedilhado como uma sensação e cada ressonância como um respiro. Alguém que usa sim a guitarra como ferramenta artesanal para esculpir e tecer rendilhados melódicos ou mantos puramente imersivos, a seu bel-prazer. Carrega em si inúmeras narrativas. Dispensa vocalizações, descarta palavras; escreve por sons, pontua-os, enumera-os e organiza-os num storytelling contínuo. Feitos admiráveis a quem se apresenta com menos de trinta anos, mas já com muitas vidas numa só.

    Qualquer melómano se habituou a escutar – e por si mesmo a entender essa verdade – de que os blues nunca poderiam ser cantados ou tocados por uma personalidade imberbe, sem uma história trágica ou um fado indesejado. Talvez muito jovem para um entendimento profundo, e tão enraizado, desse dom, Daniel Bachman parece contrariar o que afinal sempre achámos dogmático. A simples acção de se colocar a sós com a guitarra num estúdio exige, desde logo, uma dedicação tremenda do que faz, pouco ou nada relativa, senão absoluta. No entanto, a sua abordagem não é meramente interpretativa, no sentido mais passivo do termo; é sim activo, numa lógica de canalizar emoções e fundir mundos, tempos, silêncios e ruídos. Porque as teias acústicas aí elaboradas enredam-se igualmente de micro (a)tonalidades – estejam elas efectivamente presentes ou sejam levemente propostas, em suspensão. Porém esses eventuais efeitos analógico-digitais, discretos e pontuais, nunca se sobrepõem ao palpitar ‘primitivo’ da madeira e do aço. É blues, sem o querer ser, pelo menos no seu sentido mais lato.

    Do verbo ao substantivo, do meditar à meditação, a força ascendente das suas composições perfuram com delicadeza o expectável (o colosso ‘Brightleafs Blues’ é porventura um momento-chave para entender isso). Galvanizador, balsâmico, eloquente; a presença do guitarrista norte-americano pode e deve ser considerada uma das mais insulares no seu campo. Riley Puckett, John Fahey, Sylvester Weaver, Taj Mahal Travellers…e tantos outros. Se são, de uma forma ou outra, evocados neste chamamento? Sim, certamente. Se existe alguém merecedor de reencaminhar tamanhas oferendas a outras dimensões? Sim, certamente, e ele é Bachman. Imaginemos – pois é o que nos sobra – que façanhas fará este talento com mais vinte anos em cima. Antes disso, e para nos colocar neste tempo presente, subirá ao nosso palco. Há noites de sorte. NA

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    Pedro Sousa (c) Claudia Lancaster

    © Claudia Lancaster


    Pedro Sousa

    Incansável force brute na fervilhante improvisação nacional, a realidade cruza-se quase com o delírio pela diversidade de projectos envolvido ou encarnações ao vivo. Com Gabriel Ferrandini provou fazer parte de um dos duos mais vulcânicos de que há memória. Música viva, envolta em chamas, digna de um credo jazzístico obrigatório. Embora seja essa a denominação mais ortodoxa da energia que lança, em estúdio e em palco, sente-se afinal que não poderão existir fronteiras a essa faísca. A prova, se necessária, deu-se com a participação em agrupamentos tão díspares – e tão alheios ao rótulo do jazz – como CAVEIRA, Canzana ou Pão, apenas para ilustrar com uma pequena facção. Da guitarra para o saxofone, Sousa tem vindo a encontrar-se com um sopro nobre, rumo à convulsão beatífica e à expressividade mais emocionalmente rude que se possa idealizar. Num todo, provoca uma miríade de impressões cuja indiferença ficará, sempre e necessariamente, de fora.

    Recentemente acompanhadou Marching Church pela Europa fora. Hoje em dia podemo-lo apanhar a tocar num histórico clube de Copenhaga ou num armazém obscuro nos arredores de Lisboa. Em cada actuação não se espera menos que uma exaltação energética digna de testemunho. É igualmente sinónimo de seguir, em tempo real, um portento em constante evolução. São raras, muito raras, as suas apresentações a solo. Na ZDB, casa onde por diversas ocasiões deixou rasto, regressa nessa condição onde a habitual inclusão no colectivo cede aqui lugar ao papel individual. Isto claro, com tudo aquilo que de novidade essa mudança possa apelar a cada um de nós. NA

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    Entrada: 8€ | Bilhetes disponíveis na Flur, Tabacaria Martins e ZDB (quarta a sábado, 22h-02h) | reservas@zedosbois.org