• Fora de Portas
  • 23 de Maio de 2013

    Colleen na Igreja de St. George

    Igreja de St. George ao Jardim da Estrela (link para google maps)

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    O percurso musical de Cécile Schott (Colleen) tem sido uma sucessão de encontros e desencontros, abandonos e regressos. É curioso e faz inclusive pensar que existem destinos inevitáveis, como se de uma qualquer vontade divina se tratasse. Na iminência da desistência, Colleen tem depositado em cada disco uma paixão e uma dedicação que culminam sempre em obras peculiares e imensas. Volvidos mais de seis anos desde o último álbum ‘Les Ondes Silencieuses’, muito mudou na sua vida. A transição para um novo país e a canalização da sua criatividade para outras formas de expressão (como a escultura) seguiram-se a um hiato anunciado. Esse compromisso de autenticidade para com a sua arte fê-la afastar-se por tempo indeterminado da produção musical. E os anos passaram na vida de Colleen, como passaram na vida de todos nós, perdidos nos afazeres diários. Até que recentemente, de espírito renovado e com novas ideias em mente, decidiu dar voz às suas próprias canções e explorar as potencialidades rítmicas das mesmas. Em suma, um longo e cuidadoso processo de reinvenção artística e pessoal.

    ‘The Weighing Of The Heart’ nasce desta narrativa real numa pequena cidade espanhola junto ao mar. Gravado entre a sua casa e uma antiga loja, sob um Inverno especialmente rigoroso, é mais um capítulo rumo ao divino. Sendo provavelmente o mais orgânico dos seus álbuns até à data, cada momento borbulha com uma naturalidade desarmante. Existe uma certa inspiração barroca que se funde e se define em melodias circulares e sussurros esfíngicos. A forma como os sons e a voz se expandem e se sustentam em modo aquoso evoca algumas resoluções esplendorosas de Arthur Russell, Robert Wyatt ou Moondog. E sem surpresas, trata-se de um álbum recheado de pequenos grandes pormenores que tomam a dimensão de pequenos grandes milagres. Colleen é capaz de congelar o tempo como ninguém, apelando a um conjunto de imagens e de emoções orquestradas numa eternidade assombrosa e mágica. Como um pião que gira e nada mais resta ou importa, naquele instante, que a mera contemplação. Esse estado, vivido ou sonhado, é o habitat natural da artista – já patente no brilhantismo atingido em ‘Golden Morning Breaks’ ou ‘Everyone Alive Wants Answers’. Ser permitido a entrar nesse mundo faz-nos, de uma forma estranha, reencontrar com nós próprios.

    Perante esta nova fase na carreira de Colleen, o seu regresso seria, por si só, motivo da maior alacridade; no entanto, a ZDB acrescenta algo mais, apresentando-se ‘fora de portas’ e num dos espaços mais encantatórios da cidade, que já serviu de palco a músicos como Phill Niblock e Julia Holter. Em plena Igreja St. George, ao Jardim da Estrela, a francesa apresenta-se ao público num local único, conservando toda a solenidade inerente ao acontecimento. NA

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