• CONCERTOS
  • 4 de Abril 2015

    Cian Nugent | Zarabatana


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    Cian Nugent

    Deverá existir uma dose generosa de ouro nas palavras quando se aborda a obra que o jovem irlandês tem vindo a disseminar ao longo dos últimos anos. Músico ultra versátil e exímio no brilho e tonalidade das suas composições, ele tem sido um dos vultos maiores de uma nova geração de guitarristas sem género circunscrito, mantendo só e apenas a mente e o coração onde se situam as estrelas. E diz-nos a experiência de ouvintes que quando assim é, não há de facto como enganar: coisas belas simplesmente acontecem. Doubles, ex-libris provável da sua discografia, tratou de colocar Cian Nugent num santuário de cordas, fadas e dragões onde naturalmente cabem os imaginários ora idílicos, ora bravos, de gurus como John Fahey, Keiji Haino ou Jim O’Rourke.

    A mestiçagem da sua génese torna tudo mais formoso, lançando-se às raízes do blues com o mesmíssimo impulso que se entrega ao respiro da escola minimalista nipónica, isto sem esquecer as incursões espaciais celebradas pela Alemanha na década de 70 – três possíveis paisagens no meio de outras igualmente legítimas. Daí que quando há dois anos surgiu acompanhado pelo trio The Cosmos, numa clara refiguração em chamas onde o rock somou pontos, a surpresa não foi especialmente gritante; ou por outra, surpreendeu sim pelo vendaval inesperado (reforçado pela bateria, baixo e violino) embora, mais tarde ou mais cedo, soubéssemos que novas rotas se tornariam realidade, fosse a solo em colectivo. Neste aspecto, recordamo-nos de um contemporâneo seu cujas características se aplanam e que se dá pelo nome de Ben Chasny – senhor Six Organs Of Admmitance.

    Amplamente ovacionado por publicações musicais internacionais (da periférica Wire até à mais mediática Pitchfork), o valor de Nugent reparte-se grandiosamente por entre uma miríade de perspectivas – algumas já apontadas acima – mas que julgamos nunca terminadas. Haverá sempre fé por detrás das melodias entrançadas e na catarse resultante de quem se opta pela poeira da terra batida do que pelo desguarnecido cheiro a alcatrão. A identidade deste artesão acaba por ser muitas, imensas na verdade. Coabitam, constroem, transcendem. Nada que o público lisboeta já não esteja habituado a esperar dos seus concertos. Pelo Aquário sobra agora mais uma promessa de jornada iluminada, daquelas que pede real testemunho. Por ele sim, mas também por todos nós. NA

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    Zarabatana

    A música do trio Zarabatana apresenta-se como sendo dirty garage world jazz. À partida, parece um contra-senso, dado que as abordagens garage são específicas do rock e o que se define como world jazz é um jazz que procura mais claros enraizamentos etno do que aqueles que hoje contém. De um lado temos uma vertente urbana, ou talvez mais exactamente, suburbana, e do outro surge o apelo da floresta e da savana. Dir-se-ia que são mundos irreconciliáveis, mas quando ouvimos Yaw Tembe, Bernardo Álvares e Carlos Godinho tudo, subitamente, faz sentido.
    Se a música sempre manteve um carácter ritualístico, ainda que os cerimoniais à volta da fogueira tenham dado lugar às festas solenes nos aposentos do rei e aos presentes espectáculos formais nos auditórios burgueses, o que os Zarabatana recuperam é o perdido sentido tribal que ela teve em tempos remotos. Este jazz com atitude punk é novamente uma acção para espantar os espíritos ou para os convocar. Uma reconciliação com o húmus e as estrelas, colocando-nos, a nós ouvintes, no eixo das forças que sobem e descem do céu e da terra. O que só quer dizer uma coisa: é importante. Rui Eduardo Paes

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    Formação:

    Yaw Tembe trompete, cuica

    Carlos Godinho percussões, voz

    Bernardo Álvares contrabaixo, balafon, voz

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