• CONCERTOS
  • 27 de Janeiro 2017

    Bonga | B Fachada

    Bonga_site
    A ZDB inicia, com o concerto de Bonga e B Fachada, a primeira de uma série de colaborações com a Super Bock

    Bonga

    Falar de lendas vivas é cada vez mais raro. Mais raro ainda quando se trata de alguém tão intrinsecamente ligado à cultura luso-angolana, representando em si um capital histórico-social digno de toda a reverência. São poucas as figuras a suscitarem tanto respeito e carinho do público. Bonga é uma delas, certamente. Afinal tem-se mantido firme a uma ideologia político-social e uma integridade artística admiráveis. E admiração essa que foi conquistada, com suor e persistência, entre exílios, reinvenções e, acima de tudo, um amor profundo às suas raízes e ao seu povo.

    Homem de duas vidas, nele coexistem a glória passada de Barceló De Carvalho, reconhecido campeão de atletismo; e logo a nobreza presente do percussionista e cantor Bonga. Distinguido com a posição de “Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras” pelo governo francês, a simplicidade da sua pessoa tem sido uma constante. Continua a cantar para os ‘seus’ – aqueles que vivem de coração aberto – e a combater as mentalidades de conformismo, de não-sonho. É pois nos mesmos musseques, onde em jovem acumulou vivências, que insiste visitar e brindar a sua extensa obra musical. Ressalta aí uma conexão telúrica com tudo o que pode se incluir, tanto de celebratório como de contemplativo. Algo efetivamente genuíno como só assim poderia ser, mantendo brilhante a chama de um continente africano próspero e livre. É essa a imagem que nos faz florescer com a sua música.

    A voz rouca e apaixonada esconde o trajeto sinuoso de luta e resistência de quem teve de escapar do regime salazarista fazendo de cidades europeias como Paris e Roterdão as suas trincheiras e lares temporários – que ainda continuam a seguir atentamente os passos do cantor de ‘Mariquinha’. Tal como Fela Kuti, Zeca Afonso ou até Chico Buarque, Bonga Kuenda é um rosto eterno de revolução,  mas também de tolerância e convergência, que não fica atrás de nenhum dos astros citados anteriormente. Em suma, uma presença influente com quem muitos, nas franjas da margem, se reconheceram e se enlaçaram. ‘Angola 72’, o álbum banido, foi uma inauguração chave na sua discografia e um mundo novo no seu tempo. Nunca mais nada seria como antes e o mito iniciar-se-ia aí. Apresentou os ritmos do semba, antes de qualquer outro, que posteriormente foram partilhados de avós a pais e de pais a filhos. A energia positiva que Bonga levou a cada casa mantêm-se tão familiares e essenciais até hoje.

    Por isso esta apresentação, com o apoio de uma banda músicos de luxo e um novo disco no mote deste espetáculo, faz esperar por um momento único. ‘Recados de Fora’ traz mais histórias que merecem escuta, a maioria de mão dada com esse sentimento tão português que é a saudade. Dificilmente se poderia imaginar um melhor arranque para este 2017. NA

    .
    Formação:  Bonga: voz, congas e dikanza | Betinho Feijó: guitarra acústica | Ciro Lopes: acordeão e flauta | Hernani Lagrosse : baixo eléctrico | Djipson: bateria
    .

    + Info: Entrevista Público | Vídeo | Vídeo
    .
    .

    fachada

    © Mané Pacheco

    B Fachada

    Fazia tempo que ninguém cunhava um valor tão irreverente e original à pop nacional. Era um algo largamente merecido e até urgente. B Fachada não poupou tempo em afirmar-se como um exemplar fino entre os demais. À versatilidade da sua expressão sonora, acrescentou uma assinatura pessoal distinta, algures entre o tradicional e o exótico, de entendimento afincadamente contemporâneo. Tudo ingredientes pouco usuais mas certeiros que logo o situaram como um pequeno génio. Apesar do aspecto minimalista (e no enquanto rico) dos seus instrumentais, é na voz e mais ainda nas letras que essa luz ganha dimensão. Comunica connosco como com um amigo numa esplanada, entre um café e um cigarro, onde não falta o jornal diário enrolado na mesa. Paira essa consciência sobre o plano cultural e político em que vivemos, mas piscando o olho a uma bem vinda ironia e desapego formal invejável.

    De Angola ao Minho, de Fausto a Panda Bear, é essa elasticidade colorida e bastarda, de jogar e improvisar com as palavras e os sons, que se tem vindo a definir o jovem artista – que também se dedica à ilustração quando o quotidiano assim o permite. Para além disso, tem sido uma figura fulcral no apoio e acompanhamento de uma talentosa geração posterior à sua, uma espécie de padrinho, se assim quisermos chamar. Maternidade ou Cafetra são apenas duas camadas agitadoras em Lisboa de quem nos habituámos a escutar fervorosas declarações de respeito e de afecto a este patrão absoluto.

    Depois de uma pausa na sua produção oficializada pelo EP ‘O Fim’, Fachada (então já sem o bê precedente) regressou com um disco homónimo e um colaborativo com esse milagre chamado Pega Monstro. Adivinhar o que virá a seguir é sempre erróneo, pois trata-se de uma identidade em constante redefinição e busca criativa. Parece que a única garantia é o elemento surpresa. O futuro da música portuguesa já passa por aqui. Para que um dia os nossos filhos e netos possam perguntar como começou a lenda. NA

    + Info: Bandcamp |

    .

    Entradas: 15€ | Bilhetes disponíveis na Tabacaria Martins, Flur Discos e ZDB (quarta a sábado 22h-02h) | reservas@zedosbois.org