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Para uma ciência transitória do indiscernível: a Abissologia 

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João Maria Gusmão e Pedro Paiva 

Natxo Checa 

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Para uma ciência transitória do indiscernível: a Abissologia

 

"Victor: Não duvides, só a Abissologia pode descrever o movimento dos acontecimentos desconexos. Estamos a falar: do déjà vu, da paralaxe, do sincronismo e também do milagre...
Octave: Mas certamente que o Milagre não pertence a esse campo de investigações. Ambos sabemos que o Milagre tem uma causalidade metafísica.
Victor: Caro Octave, os Abissologistas pensam muito pouco no invisível. Eles têm uma ideia muita avessa às coisas transparentes: faz-lhes confusão pensar que na sua própria casa possam estar sempre a chocar com entidades aéreas, sejam elas Deus, muito grande e por todo o lado, ou fantasmas do passado. Para eles nada de transcendente se esconde na sombra dos objectos, é apenas menos luz. Uma escuridão que provoca no olho o indiscernível.
Octave: E não é esse indiscernível a prova do transcendental?
Victor: Sim, para alguns parece que assim é. Para outros, é a condição mais material dos fenómenos."

Excerto de Diálogos Abissologistas, João Maria Gusmão e Pedro Paiva

1 – Introdução

A obra de João Maria Gusmão e Pedro Paiva tem-se concentrado numa tarefa sistemática, a saber, a construção de uma filosofia experimental acerca do transitório. A estrutura do seu trabalho é desenhada a partir de blocos conceptuais que se sobrepõem e que são lançados de uma forma articulada com uma terminologia desenvolvida pelos autores. Desta maneira, nunca um trabalho exposto aparece isolado, sozinho e sem referências, porque, paralelamente à sua obra plástica, existe a produção de textos que nomeiam as articulações fundamentais do seu ideário especulativo.

Associado aos artistas vamos encontrar, ao longo dos últimos anos, o nome de um efeito ou de um fenómeno incalculável (Exposições Deparamnésia, 2002, Para que haja questão: o (Des)Aparecer in publicação Eflúvio Magnético 2), a ficção de uma lei geral de afectação dos corpos ou de uma lei da singularidade dos acontecimentos (Exposições Eflúvio Magnético, 2004-2006, A Apresentação da Multiplicidade Inconsistente in publicação Eflúvio Magnético 1), ou, entre outros conceitos, a ideia de negação de uma finalidade teleológica (Exposição Fiasco, JMG 2004, Identificando um fundo Patafísico in publicação Eflúvio Magnético 1).

O que surge como inusitado é que a obra parece não ter conhecimento do resto do seu corpo, nem percepção do território discursivo que os seus autores ocupam. No seu todo, a obra é completamente heterogénea; intercalam-se as modalidades distintas da sua apresentação entre o objectual e o disseminado; os filmes são apresentados em sequências aparentemente arbitrárias e tão pouco, um texto de JMG+PP cita uma composição artística da sua autoria.

Este afastamento particular é, ao contrário do que possa afigurar-se, uma autonomização intelectual das modalidades expressivas, exemplo: o cinema não precisa da palavra para ser pensamento, mas exige a palavra para se formarem ideias acerca da sua natureza.
Quanto mais autónomo for este pensar/falar do cinema, menos este se constitui como um discurso substitutivo ao pensamento estrito do cinema (tempo/imagem), pelo contrário, contrai a necessidade desse pensamento ser processado por uma proposição exclusivamente artística.

É nessa qualidade, de cinema experimental, instalação e fotografia, que João Maria Gusmão e Pedro Paiva desenvolvem, à semelhança de um sistema filosófico, um edifício para uma ontologia que não serve como conhecimento do ser em si (de uma verdade definitiva), mas que elabora as complexidades pelas quais não é possível ter acesso ao ser em si. O seu propósito retrata-se na elaboração de uma narrativa/percurso verídico ficcional (e não de uma verdade) sobre a questão ontológica, explorando as interdições que lhe são intrínsecas.

O projecto mais extenso da dupla de artistas, reunido nas duas exposições anteriores: O Eflúvio Magnético: o nome do fenómeno, 2004 e O Eflúvio Magnético, 2ª parte, 2006, apresenta-se na forma de uma pseudo-ciência, como um ensaio acerca da mecânica da realidade, que considera preferencialmente um "modelo hidráulico".

Neste sentido, as suas divagações encontram um eco com os pré-socráticos, nomeadamente com toda a corrente inaugurada por Heráclito, desenvolvida pelos atomistas e epicuristas e que na filosofia contemporânea e do século XIX tem ecos e revisitações de grande interesse. Trata-se de perscrutar a realidade pela intensidade das flutuações, pela intersecção da matéria em fluxo perceptivo, de forma que, a partir do devir da heterogeneidade, se possa produzir um certo modelo.

Esta aparente contradição entre o objecto em permanente movimento, o fluxo, e a imobilização deste num arquétipo, só se explica pelo facto de esta ciência estudar a apresentação do fluxo, ou melhor, pelo facto de ela mesma ser a apresentação da apresentação impossível do fluxo, uma vez que este não tem um tratamento objectivo. É preciso, como para toda a ontologia, um terceiro termo.

Daí advém que esta ciência seja vaga: "nem inexacta como as coisas sensíveis, nem exacta como as ciências ideais, porém anexata e contudo rigorosa ("inexacta por essência e não por acaso")", uma vez que o seu objecto, a multiplicidade inconsistente, não admite a medida ou a conta-por-um.

O novo projecto da dupla de artistas, Para uma ciência transitória do indiscernível: a Abissologia pretende propor uma nova disciplina ficcional, a Abissologia, avançada como o estudo discreto do indiscernível enquanto categoria negativa.

2 - A sombra da Lua

O problema ontológico recai de uma forma inevitável para a questão da apresentação. Para dar um seguimento específico a esta observação, nada melhor que percorrer a análise de Popper do poema "Sobre a Natureza" de Parménides de Eleia. Como é sabido este poema constitui uma libertação da teia mitológica politeísta grega e o início do raciocínio filosófico. Sucintamente, a tese de Parménides resulta da exposição como dois caminhos opostos de duas doutrinas distintas para entender a realidade: a primeira, seria a via da ilusão, e a segunda seria a do conhecimento verdadeiro das coisas (esta tese desenvolve-se em Platão na teoria das ideias, Timeu).

O curioso da interpretação de Popper é que ele só aceita esta brusca progressão intelectual - da explicação divina do cosmos para uma inquietação ontológica - a partir de um salto científico. Popper sugere a hipótese de um avanço cognitivo, como o abandono do imaginário mitológico, avanço esse que implicaria a reformulação do paradigma do Universo. Existe nos pensadores pré-socráticos, indícios que levam Popper a concluir que o antigo grego possui, a partir de certa altura, a ideia de uma tela celeste constituída por objectos diferenciados, corpos celestes autonomizados, e já não a concepção de uma superfície a uma distância fixa.
Esta mudança na compreensão do céu e no entendimento do dia e da noite faz com que a observação da lua se constitua num dado de interpretação da realidade de extrema importância.

O fenómeno lunar transporta consigo um dualismo perceptivo durante as fases crescente e decrescente: existe uma parte da lua visível e existe outra invisível. O grego teria a consciência de que a lua seria um objecto unívoco revelado pela lua cheia e que durante as outras fases, a invisibilidade não retirava o ser ao corpo lunar, pelo contrário, o grego produzia a intuição de que apesar de escondida, a lua estava lá, isso porque lhe adivinhava a sombra. É a articulação essencial da ontologia: onde está o ser na apresentação?

A lua vai transportar, desta forma, uma relação arquetipal do sujeito com todos os objectos que constituem a realidade, produzindo, ao mesmo tempo, a questão ontológica projectada na lua: qual o ser da Lua? E a resposta metafísica: a lua não é o seu fenómeno visível, sempre em mutação e constante movimento, a lua em si é a sua parte invisível, que sendo mais do que a sua sombra própria, é uma desmaterialização completa, uma transcendência.

Para Popper, esta progressão acerca do entendimento da Lua é projectada para todos os outros entes. Como se a sombra pudesse realizar um desaparecimento completo e essa noção negativa (sim, porque se a condição material dos corpos é o seu desaparecimento, estamos a falar do vazio), pudesse ser a causalidade maior de todas as coisas que existem.

Começa-se a esboçar uma tese para o indiscernível, investigando a génese do problema da sombra. Tendo em conta a tese de Popper, Parménides e de forma geral os Eleatas (paradoxo de Zenão), incorrem num erro fundamental que estigmatiza toda a história do pensamento, eles confundem a sombra com a transcendência, quando a discussão que a sombra levanta é a de falta de discernimento: impossibilidade de descriminar e distinguir a composição do ente - um assunto estritamente ontológico e não metafísico.

Podemos ir mais longe e afirmar que o problema da sombra só se constitui como questão ontológica para uma filosofia materialista. Porquê? Porque a sombra é o inominável do visível (pensemos no nosso poeta materialista, Caeiro, e de que forma a sombra pode esvaziar toda a Natureza da visão) - sombra como condição do ver.

3 - Da sombra da lua para o indiscernível atómico

"Victor: o abismo na Abissologia é só um disfarce. Todos pensam que nos deleitamos a observar a profundidade de longe e de cima. Pelo contrário, queremos ver antes a profundidade nessa indistinção que é estar no abismo ao mesmo tempo no topo e no fundo. Sim, a abissologia é o estudo da diferença de escala, mas na medida em que essa diferença é subtraída pelo indiscernível, o grande buraco do ser das coisas...
Vamos ainda ter que pensar como se forma esse efeito da sombra naquilo que existe, uma vez que as coisas existem mesmo."
Excerto de Diálogos Abissologistas, João Maria Gusmão e Pedro Paiva

A primeira filosofia de carácter materialista surge precisamente na oposição a Parménides e ao dualismo transcendental que mencionamos atrás. Estamos a falar do Atomismo, mas mais precisamente do Epicurismo (Epicuro e Lucrécio). Estas correntes de pensamento descrevem os fenómenos recorrendo a uma física especulativa, de modo a conferir aos corpos, ao espaço e ao tempo uma realidade gnoseológica. Aqui, a ontologia encontra-se com o naturalismo duma forma específica - a questão do ser está antes remetida para um acontecimento genérico e constitutivo de todos os entes, o encontro dos átomos.

Este sistema revolucionário detém-se sobretudo num princípio categórico: o espaço é constituído por cheios e vazios, que na sua combinação complexa fundam perpetuamente um mundo composto por movimentos atómicos. O átomo, numa escala descendente de corpos, é a partícula indivisível que o olho humano não consegue discernir. Ele é concebido como um corpo mínimo, não visível, mas tão pouco transcendental. A sua qualidade ínfima faz com que seja indistinto, daí que não possa ser senão pensado. Os átomos, sempre em transição, num acto de combinação, de atracções e distracções, de humificações, formam o desenho que inscreve à superfície das coisas os elementos necessários para que as emanações mais sólidas ou mais frágeis existam.

Encontramo-nos perante uma grande encenação científica. O Epicurismo inventa uma filosofia para poder pensar o diverso do diverso, numa composição não totalizável entre elementos da Natureza. O método é essencialmente descritivo (daí o naturalismo), mas abstracto (indutivo): os átomos existem por todo o lado, mas não se vêm. Não obstante, esta parece ser a única possibilidade para agarrar fenómenos fugazes.
O problema da sombra entra completamente generalizado - a realidade estaria totalmente em sombra, todos os fenómenos seriam indiscerníveis, microscópicos e sempre em transformação constante - o atomismo tenta arrancar da sombra, não uma dimensão transcendente, mas uma ideia acerca da interacção difusa do real. Ideia essa, necessária para proporcionar um quadro existencial satisfatório e concordante com a compreensão dos processos da Natureza.

Desta forma, um ente (seja ele qual for, pode ser um som) é necessariamente composto por uma soma infinita de átomos que se entrelaçam com o vazio. No entanto, para se constituírem matéria, os átomos em queda têm que se juntar, sair inexplicavelmente da sua rota paralela. O termo chave utilizado para dar conta desse movimento espontâneo é o clinamen ou declinação, razão pela qual um átomo se encontra com outro.

Em Lucrécio e Epicuro a existência dos corpos está, então, dependente de um raciocínio especulativo sobre a concentração dos átomos em substância. Em Epicuro, entre o discreto atómico (a quantificação do átomo) e o indiscreto da substância (a heterogeneidade dos entes), é fundamental encontrar a causa pela qual os seres não são suprimidos pelo vazio interatómico. O encontro atómico funciona precisamente como a devolução à sombra: o átomo encontra outro átomo e torna-se indistinto face à sua condição formal anterior (a queda paralela e inconsequente). Quer dizer que o indiscernível é também o inominável desta situação: o átomo é uma entidade estritamente conceptual e de trato objectivo, de forma que, para estruturar um acontecimento material ele tem que se apresentar na sua qualidade indeterminada e própria. A queda atómica, infinita e vertical é quebrada pela necessidade do real e do ser.

"Octave: Victor! Victor! Onde estás?... Encostaste-te à sombra. Mal te reconheço. Não sei se envelheceste, se pareces mais novo.
Victor: Nunca mais me vais ver. Só daqui saio quando o sol for baixo."

Excerto de Diálogos Abissologistas, João Maria Gusmão e Pedro Paiva

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"Octave: Parece-me que essa doutrina que agora defendes retira o seu nome das expedições dos grandes alpinistas soviéticos.
Victor: Não podias estar mais enganado. A Abissologia refere-se ao abismo tão somente enquanto a imagem de um buraco do tamanho de um degrau. Um Abissologista nunca quis respirar o ar da montanha. Ele apenas sabe que deve subir ou descer o mais que puder para perscrutar a indiferença subtractiva. À beira de um precipício ou na sua encosta, consta que se é afectado por um sentimento paradoxalmente semelhante: a queda da pessoa no precipício ou a queda do precipício na pessoa.
Octave: Mas porque quererá um cientista mortificar-se com observações tão pueris?
Victor: Não conheces ainda a intensidade da negação, na verdade, à beira do abismo, nunca abrimos os olhos porque temos medo... Mas havemos de lá chegar."

Excerto de Diálogos Abissologistas, João Maria Gusmão e Pedro Paiva

Estamos então em condições de nomear a esfera específica em que o indiscernível se refere à Abissologia:

1. O indiscernível revela-se (negativamente) na observação vaga da sombra própria. Entendido como o mínimo visível, ele é o lugar obscuro onde a permutação dos termos que o constituem é irrelevante para o seu sentido. Desta forma, um rosto em sombra, permuta a sombra da boca com a sombra do olho direito, sem deixar de ser rosto, não obstante, um rosto indistinto, impessoal. A indiferença subtractiva produz um grau latente de genericidade que dissolve qualquer tentativa de tornar concreto qualquer objecto em sombra.

2. O indiscernível não sustenta ser transcendência. Trata-se de uma condição material porque é o inominável do visível. Se o nome próprio da lua fosse a sua invisibilidade, estaríamos a nomear uma transcendência. Como sabemos, as sombras não têm nome, mas se quiséssemos dar nomes às sombras chamar-lhes-íamos sombras.

3. A Abissologia é a disciplina que estuda a profundidade indiferenciada da parte mais escura da silhueta. As suas teses, à semelhança da teoria atómica, têm que se referir a dados discretos pensáveis, de forma a aproximarem-se o mais possível do inominável da situação.

4. Não podemos entender por Abissologia um pensamento que não seja uma ficção - no sentido de uma grande encenação científica. O indiscernível comporta visibilidade zero; só pode ser abordado de esquiva por um aparelho conceptual que deliberadamente faz esse desvio para perseguir o seu objecto de estudo.

5. A componente subtractiva da sombra é apresentada como uma negação intransitável, não obstante, o Abissologista refere sempre o Indiscernível como uma potência genérica afirmativa.